Quem não quer ser adolescente pra sempre?
- Mariana Lima
- 8 de mai.
- 4 min de leitura
Pra começar esse texto, nada melhor que uma foto do homem Ney pra ilustrar aonde eu quero chegar. Você não precisa acompanhar o mundo esportivo, para que chegue notícias quase diárias das meninices feitas por Neymar Junior.

Coisas como dizer que o árbitro da partida estava “de chico”, bater no colega de trabalho porque o menino está jogando melhor que ele. Dizer que ele sofre muito pela “perseguição” jornalística, afinal, como é difícil ser o Neymar. Um homem de 34 anos, ancorado em uma fase de sucesso no futebol, milionário, idolatrado por diversos homens e protegido pela nossa sociedade.
Ele parece um caso muito à parte, afinal é um adolescente adulto capaz de comprar uma réplica do batmóvel para brincar. Ou seja, muito, mas muito, distante da realidade dos incontáveis adolescentes adultos que temos encontrado por aí, mas a exposição de Neymar é excelente para exemplificar um movimento comum aos homens atualmente.
Para um pouco, olhe ao seu redor, e eu posso apostar com você, que você conhece ao menos um homem adulto, com comportamento e postura de adolescente. Ou eles não tem um emprego, ou eles não estudam, não se movimentam para ter uma perspectiva de crescimento, não se responsabilizam pela própria vida e escolhas, e se sentem como verdadeiros injustiçados e vítimas de um mundo cruel.
Vamos tentar explicar um pouco mais isso.
Vamos começar com um olhar feminista para nossa sociedade atual. Por um lado, nunca nós mulheres tivemos tantos alcance e direitos como temos hoje, no mundo contemporâneo. Óbvio que ainda falta uma enormidade para o mínimo de equidade, mas fica destacado que hoje mulheres estão ocupando lugares e cargos que antes eram impossíveis. Seja qual for a profissão, nós vemos mulheres se apropriando cada vez mais de lugares que nunca foram pisados por nós.
Autonomia e independência têm sido características cruciais na formação da maioria das mulheres das últimas gerações. Mulheres que correm atrás da sua independência financeira, mulheres que decidem não ser mães, assim como, mulheres que estão revolucionando a maternidade e o cuidado, mulheres que amam outras mulheres vivendo seu amor, e revolucionando os afetos, as mulheres estão mais qualificadas, estão mais corajosas e mais resilientes. Temos ainda um alto índice de divórcios solicitados por mulheres, vide a não obrigação de permanecerem casadas em relacionamentos infelizes, não toleramos mais a violência e o desrespeito dos homens, e estamos conseguindo dizer ‘não’ com mais firmeza. Contudo, parece que esse movimento tem gerado uma resposta.
Afinal, se de um lado as mulheres estão se reinventando e revolucionando as formas de está no mundo enquanto mulheres, os homens parecem estar completamente perdidos.
O que temos hoje, por um lado, são homens adultos que não sabem se virar sozinhos. Adoecidos, não conseguem se movimentar e assumir a responsabilidade pela própria vida. Eles não sabem cozinhar, ou não sabem como cuidar de uma casa, ou cuidar de si mesmo. Não aceitam qualquer emprego, pois sentem-se dignos de algo melhor. Acreditam que são extraordinários, e que por isso merecem caminhos mais fáceis. Passam grande parte de seu tempo em duas diversões adolescentes (internet, redes sociais, jogos…) e são incapazes de resolver qualquer problema de uma pessoa adulta, é impossível contar com eles. E eles seguem suas vidas, enquanto outras pessoas seguem atrás limpando sua bagunça.
E quem limpa essa bagunça? Ah é! Nós mulheres!
Para garantir essa vida adolescente, esses homens se encontram ancorados em uma mulher, muitas vezes uma mãe ou uma companheira/parceira amorosa. Que garantem a sobrevivência desse homem, uma vez que sem esse apoio, muitos estariam em condições de extrema vulnerabilidade.
Não dá pra descartar que há um sofrimento genuíno nessa situação. Inclusive, em muitos casos a depressão aparece enquanto diagnóstico. Contudo, não podemos fechar os olhos para uma estrutura social e cultural, que permeia essas condições.
Aliás, me diga se não é um perfil perfeito para se vender cursos de como ser homem?!
Agravando ainda mais a situação, acredito haver um outro caminho que a masculinidade vem adotando para lidar com a sua falta de reinvenção no mundo. Que é o caminho da violência. A cada dia, temos um caso absurdo de feminicídio. A cada dia, nós temos novas fórmulas criadas por esses homens, de violência contra a mulher. São dados aterrorizantes!
Enquanto alguns caem no lugar de depressão, de impotência e eternos adolescentes. Outros, transformam seu ressentimento em combustível para a violência. A masculinidade não tem conseguido se reinventar no mundo moderno e pune quem não o acolhe e protege.
Ah, mas nem todo homem é assim! De fato, e ainda bem! Porém é muito pouco.
Em 2016 uma pesquisa da ONU revelou que cerca de 95% da violência no mundo é perpetuada por homens. E apesar dos 10 anos dessa pesquisa, não me parece que esses dados sofreram significativas mudanças.
Vivemos em um mundo hoje, onde temos diversos conflitos ocasionados pelo simples capricho e proteção dos interesses e poder de poucos bilionários. São milhares de pessoas morrendo, passando fome, sendo torturadas, perdendo tudo que há de dignidade por conta das escolhas e decisões de poucos homens bilionários.
Se isso não te revolta, eu não sei o que vai.
Eu não caminho para a conclusão com uma solução e formas de como lidar com isso, e acredito ainda que seja um tanto óbvio, que esse texto não contempla tudo o que se poderia discorrer sobre o tema, caberia esmiuçar outras realidades, outras vertentes e mundos possíveis. Aliás, nada é uma coisa só, ou uma forma só de ser. Mas como isso não é um mestrado, é apenas um ensaio sobre um tema que venho pensando, acho que a mensagem foi passada.
Nós precisamos com urgência revolucionar os caminhos possíveis da masculinidade, do que é ser, e como ser homem nos dias de hoje. Precisamos que os meninos tenham possibilidades de se colocarem no mundo de forma autônoma, independente e respeitosa para qualquer forma de existência. É preciso dar outra alternativa, outras referências para que os meninos tenham outras possibilidades e as mulheres permaneçam vivas.


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