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A clinica que eu acredito

“Ah, mas toda psicóloga deve ser neutra!”


Você assim como eu já deve ter ouvido essa afirmação por aí, afinal, a imparcialidade do psi é algo culturalmente colocada no imaginário das pessoas. Eu até entendo de onde isso possa partir, mas não devemos confundir respeito e empatia às pessoas que se apresentam para um processo terapêutico, com omissão e imparcialidade diante de violências e armadilhas do mundo. E isso se diz sobre uma postura ética do terapeuta.


Eu costumo dizer que a parte mais dura do trabalho no cuidado da saúde mental, é estar sempre atenta e desperta para as violências e dores que uma pessoa possa vir a sentir. Isso implica, em reconhecer as raízes, as profundezas e o do que se alimenta essas dores. 


Cada pessoa tem sua história, cada pessoa tem sua forma de viver as experiências da vida, mas há algo que é coletivo, o que na Gestalt chamamos de campo. Um bom exemplo, é se olharmos para as angústias e ansiedades vividas pelas pessoas no período da pandemia da Covid 19, se você trocar com outras pessoas, vai perceber uma similaridade nas experiências, que mesmo vividas de forma única por cada pessoa, há uma dor e angústia coletiva, vivida e experimentada, pois estamos no mundo em que vivemos.


Vejamos o cenário mundial, basta um pouco de tempo para pensar, que percebemos o quão aterrorizante está o mundo que encontramos hoje, à beira de uma terceira guerra mundial, com diversos conflitos simultâneos.


No Brasil, uma onda de violência de gênero, feminicídios, índices de violências contra pessoas LGBT's sempre absurdos, entre tantas outras formas possíveis de violência cotidiana… ai, você pode até se perguntar, por que não estamos desesperados?? e acho que é ai que entra a falta de tempo para pensar. 


A alienação chega e se aconchega como um abraço quentinho.


Mas ainda que tenhamos os melhores (ou piores) conteúdos de entretenimento, com os melhores (ou piores) memes, essa dor que por vezes não é percebida, é sentida de alguma forma. Ela tem direcionamento, talvez não para um lugar lúcido, mas para algum lugar. Fundamental pontuar também, o quão eficiente é tirar toda nossa dignidade de existência, onde tudo o que cabe na vida é apenas a luta pela sobrevivência. 


Como encontrar tempo para pensar, se não há nem para se viver? 


Trabalhos cada vez mais exigentes, com cada vez menos direitos e uma vida totalmente emaranhada na lógica da performance. Um projeto tão eficaz, que diante da retirada do nosso tempo, que é todo entregue ao trabalho, não sobra nada, inclusive não sobra perspectiva de acreditar que merecemos algo melhor. Uma aceitação condicionada à lógica cruel e perversa que vivemos. E apesar de tamanha crueldade, são lógicas tão sutis que passam sucintas em nossa vida.


E é aqui, que o trabalho clínico embasado numa postura política, se faz fundamental. Quando recebemos qualquer pessoa na clínica, precisamos estar atentas aos atravessamentos sociais, que nos desencadeiam diversos sofrimentos. Entendendo a importância e alcance que cada encontro na psicoterapia pode ter, acredito ser importante atuar em uma clínica construída em solo crítico, político e de afeto. 


Crítico, pois é de nossa natureza questionar, o silenciamento vem para aqueles que foram abatidos demais para pensar, e no processo terapêutico, somos capazes de criar espaços e força para que cada pessoa possa pensar por si. Político, pois enquanto seres sociais a vida em coletivo é vital e necessária para nossa constituição, uma vez no mundo, somos partes integrantes de um coletivo. E o Afeto, que se apresenta para acolher e reconhecer nossas vulnerabilidades, coisas grandiosas são construídas quando acolhida nossas vulnerabilidades.


Essa base fomenta um trabalho honesto e poderoso na clínica. A psicologia não pode ser neutra diante das violências do mundo, e o trabalho clínico também não. A construção de uma clínica anti-capitalista, anti-racista, anti-LGBTfóbica e de respeito com todas as possibilidades de existência, se faz, através de um trabalho crítico e atento. Uma vez ignorada essas violências, o terapeuta se coloca como conivente, e perpetuador dessa lógica de sofrimento. 


Importante pontuar que clínica não é espaço educacional, ou seja, não cabe a nenhum terapeuta tentar ensinar ou impor o que acredita ao seu consulente. Não ser conveniente ou isento diante das violências, não é sobre ensinar o que é certo ou errado para o consulente. É construir um espaço crítico e seguro para cada consulente possa pensar por si, seja lá pra onde for.


Na clínica que eu acredito, é primordial promover um espaço que dê suporte para que cada pessoa possa pensar por si mesma, ampliando suas possibilidades de existir e ser no mundo, de forma possível e segura. Como Gestalt - terapeuta, não podemos compactuar com a norma que aprisiona. Em conjunto com o consulente somos capazes de construir possibilidades autênticas e genuínas de existir.


Uma boa terapeuta, é uma pessoa critica no mundo!


 
 
 

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